sábado, 2 de julho de 2011

Apaixone-se por mim



Apaixone-se por mim. Não um amor de mesa posta, talheres de prata, toalha de renda, porcelana inglesa, terça-feira, água morna, gaveta arrumada. Apaixone-se por mim de madrugada, passada das cinco à meia voz, ou no meio de uma tarde de chuva, rua alagada, sapato encharcado, roupa colada  e amor faminto, urgente, latejante, um amor de carne, sangue e vazantes, um amor inadiável de perder o rumo o prumo e o norte, me ame um amor de morte. Não me dê um amor adestrado que senta, deita, rola e finge de morto, que late e abana o rabo, um amor quadrado que pensa muito antes de mais nada. Me ame um amor insano, felino, sorrateiro e, assim que eu me distrair, me crave os dentes, as unhas, role comigo e perca-se em mim e seja tão grande a ponto de me deixar perder. Apaixone-se por mim com um amor de gente, humano e, às vezes, quase triste, cheio de medo e de coragem, passagem só de ida, mãos trêmulas para toda vida, um amor de gargalhada solta e olhos úmidos, mãos dadas e beijos múltiplos, orgasmos muitos e pernas enroscadas. Apaixone-se por mim de forma desmedida, ame minhas curvas, minha vulva, minha carne, me fecunde e se espalhe por meus versos, meus reversos, meus entalhes, perca-se nos detalhes, demore o quanto quiser, sem pressa. E permita que eu faça o mesmo.

Ticcia

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