sábado, 23 de outubro de 2010

Crônica de um amor anunciado



Toda pessoa apaixonada é um publicitário em potencial. Não anuncia cigarros, hidratantes ou máquinas de lavar, mas anuncia seu amor, como se vivê-lo em segredo diminuísse sua intensidade.

O hábito começa na escola. O caderno abarrotado de regras gramaticais, fórmulas matemáticas e lições de geografia, e lá, na última página, centenas de corações desenhados com caneta vermelha. Parece aula de ciências, mas é introdução à publicidade. Em breve se estará desenhando corações em árvores, escrevendo atrás da porta do banheiro e grafitando a parede do corredor: Suzana ama João.

A partir de uma certa idade, a veia publicitária vai tornando-se mais discreta. Já não anunciamos nossa paixão em muros e bancos de jardim. Dispensa-se a mídia de massa e parte-se para o telemarketing. Contamos por telefone mesmo, para um público selecionado, as últimas notícias da nossa vida afetiva. Mas alguns não resistem em seguir propagando com alarde o seu amor. Colocam anúncios de verdade no jornal, geralmente nos classificados: Kika, te amo. Beto, volta pra mim. Everaldo, não me deixe por essa loira de farmácia. Joana, foi bom pra você também?

O grau máximo de profissionalismo é atingido quando o apaixonado manda colocar sua mensagem num outdoor em frente a casa da pessoa amada. O recado é para ela, mas a cidade inteira fica sabendo que alguém está tentando recuperar seu amor. Em grau menor de assiduidade, há casos em que apaixonados mandam despejar de um helicóptero pétalas de rosas no endereço do namorado, ou gastam uma fortuna para que a fumaça de um avião desenhe as iniciais do casal no céu. A criatividade dos amantes é infinita.

O amor é uma coisa íntima, mas todos nós temos a necessidade de torná-lo público. É a nossa vitória contra a solidão. Assim como as torcidas de futebol comemoram seus títulos com buzinaços, foguetório e cantorias, queremos também alardear nossa conquista pessoal, dividir a alegria de ter alguém que faz nosso coração bater mais forte. É por isso que, mesmo não sendo adepta do estardalhaço, me consterno por aqueles que amam escondido, amam em silêncio, amam clandestinamente. Mesmo que funcione como fetiche, priva o prazer de ter um amor compartilhado.

Martha Medeiros

2 comentários:

  1. Nossa que crônica bem escrita da Martha Medeiros, parabéns por tê-la publicado aqui em sua página literária querida. Realmente o amor é algo que nos preenche e nos realiza tanto que não nos contemos em guardá-lo somente para nós e resolvemos compartilhá-lo com o mundo, sim com o mundo exterior aquele que está além daquele "mundinho" criado por nós e pela pessoa que está ao nosso lado. A cronista além dos inúmeros exemplos que deu sobre as mil maneiras de fazer marketing do seu amor que as pessoas costumam lançar mão, esqueceu-se de mencionar que hoje também tem muita gente que dedica um blog todo de poesias e textos românticos aquela pessoa pela qual está apaixonadíssima. Bom Raquel, amei o seu blog, ele é muito bonito e o mais importante, bem enxuto, sem poluição visual alguma!Olha li o seu perfil com atenção e o achei bem escrito e até poético, aceitarei o desafio de conhecê-la melhor sim, vc deve ser uma menina-mulher fantástica. Beijos poéticos.

    PS: Que tal uma parceria de banners entre nós dois?Estou levando o seu comigo, vc poderá vê-lo em meu blog na página denominada "Parceria" que fica embaixo da imagem de cabeçalho dele, ok?O meu banner vc poderá pegá-lo na barra lateral desta minha mesma página literária na web, certo?Beijos doces e poéticos e vamos a nossa grande parceria!!!

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